​Ascensor da Glória (MN) – perante a tragédia de há 1 ano exacto, a CML, o PC-IP e a Carris não podem responder àquela apagando a memória / Carta aos presidentes da CML, PC-IP e Carris (03.09.2026)

Ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Eng.º Carlos Moedas

Ao Senhor Presidente do Património Cultural, I.P., Dr. João Soalheiro

Ao Senhor Presidente da CARRIS, Dr. Rui Lopo

 

C.C. AML , atelier Bak Gordon e Media

A pretensão anunciada pela CARRIS, aparentemente em sintonia com a Câmara Municipal de Lisboa, de responder à tragédia de setembro de 2025 através da substituição do histórico Ascensor da Glória por um modelo de linguagem e design contemporâneos constitui, a nosso ver, uma decisão precipitada, culturalmente inaceitável e que não está devidamente fundamentada. Quem exerce funções públicas tem o dever de garantir a segurança dos cidadãos, mas também de salvaguardar o património que recebeu das gerações anteriores. Não pode, por isso, aproveitar-se uma tragédia para substituir um Monumento Nacional pela solução aparentemente mais rápida, fácil ou barata.

Ao contrário da narrativa que tem vindo a ser transmitida pela CARRIS e pela CML, os elementos conhecidos até ao momento não apontam para uma inevitável “obsolescência do material circulante”. O Relatório Preliminar tornado público identifica falhas nos componentes de sustentação, nos sistemas de segurança e nos procedimentos de fiscalização. Segundo informação entretanto divulgada, “o cabo de união das duas cabinas do elevador da Glória que cedeu, não respeitava especificações nem estava certificado para transporte de pessoas”. A confirmar-se pelo Relatório Final, estaremos perante uma falha grave de manutenção, fiscalização e gestão da segurança e não perante uma consequência inevitável da antiguidade, do peso ou da configuração histórica das cabinas. Não é, portanto, aceitável transformar uma eventual falha técnica e operacional num argumento para eliminar a identidade histórica do equipamento.

O Ascensor da Glória é classificado como Monumento Nacional enquanto conjunto integrado. A sua proteção não se limita ao traçado ou à infraestrutura: abrange o sistema e a autenticidade material dos seus elementos, incluindo as cabinas que lhe conferem a sua identidade histórica. A sua substituição por veículos de design contemporâneo não constitui uma simples modernização. Representa uma alteração radical da imagem, materialidade e autenticidade de um bem patrimonial que pertence à cidade.

Por isso, perguntamos: Quem conferiu à CARRIS ou à CML o mandato para alterar radicalmente um Monumento Nacional que faz parte da memória coletiva de Lisboa?

E, sobretudo: O Património Cultural, I.P. deu parecer favorável a uma intervenção que implica a perda da autenticidade das cabinas históricas?

O Fórum Cidadania Lx rejeita categoricamente a ideia de que a segurança dos passageiros exija o abandono da traça histórica. A engenharia contemporânea permite reforçar chassis e estruturas, instalar sistemas de travagem, sensores e monitorização permanente, sem destruir a identidade dos veículos. Essa é, precisamente, a finalidade da engenharia de reabilitação patrimonial: integrar tecnologia contemporânea numa estrutura histórica sem sacrificar a sua autenticidade. Exemplos de cidades como Bérgamo, Budapeste ou Zurique (por sinal, na Suíça, que inventou o sistema dos funiculares e onde se encontram em funcionamento alguns dos funiculares mais antigos do mundo, desde logo o mais antigo da Europa, o funicular de Giessbach, que foi restaurado e mantém as suas características originais, sendo usado todos os dias por milhares de pessoas e que nunca teve acidentes) demonstram que é possível conciliar infraestruturas históricas com os atuais padrões de segurança. Antes de afirmar que a substituição é inevitável e que os nossos funiculares, MN, são obsoletos, a CARRIS deve demonstrar, através de estudos técnicos independentes, que a preservação das cabinas e dos chassis históricos é efetivamente impossível.

Realçamos, aliás, o facto de em mais de 100 anos de funcionamento dos funiculares de Lisboa nunca ter havido um acidente mortal desta natureza!

É igualmente inaceitável que a CARRIS e a CML tenham pré-anunciado uma solução definitiva para o Ascensor da Glória, antes de serem conhecidas as conclusões finais sobre o acidente. É indispensável esclarecer as causas da tragédia, as falhas de manutenção e fiscalização, as responsabilidades técnicas e, sobretudo, quais as soluções estudadas para preservar o material histórico garantindo simultaneamente os mais elevados padrões de segurança. Não se pode partir da decisão de substituir para depois procurar uma justificação técnica.

Nestes termos, o Fórum Cidadania Lx exige:

– A reconstituição e o restauro escrupuloso da traça, volumetria, materiais e identidade visual da carruagem histórica acidentada, incorporando no seu chassis e estrutura os sistemas de segurança e redundância necessários;

– A suspensão de qualquer decisão de substituição ou descaracterização das cabinas históricas até à divulgação do Relatório Final sobre o acidente;

– A realização e divulgação de estudos técnicos independentes que avaliem soluções de reabilitação e modernização que preservem integralmente as cabinas e os chassis históricos;

– O indeferimento pelo Património Cultural, I.P. de qualquer solução que comprometa a autenticidade e integridade do Monumento Nacional, enquanto não for demonstrada a absoluta impossibilidade de conciliar património e segurança;

– Total transparência da CARRIS e da CML quanto às causas do acidente, procedimentos de manutenção e fiscalização, responsabilidades apuradas e fundamentos técnicos da solução que pretendem adotar.

Os ascensores históricos de Lisboa não são apenas meios de transporte. São parte da memória coletiva, da paisagem e da identidade da cidade, amados pelos lisboetas e admirados por quem nos visita. A segurança dos passageiros é inegociável, a preservação do património também. Lisboa não tem de escolher entre ambas. É obrigação dos seus responsáveis encontrar uma solução que permita modernizar e tornar absolutamente seguros os seus ascensores sem destruir aquilo que os torna únicos.

Informamos ainda a CARRIS, a Câmara Municipal de Lisboa e o Património Cultural, I.P. de que o Fórum Cidadania Lx não assistirá passivamente à descaracterização deste Monumento Nacional, na medida das suas atribuições estatutárias, caso persista a intenção de avançar com uma solução que comprometa a sua autenticidade e integridade patrimonial.

Modernizar, sim.

Reforçar a segurança, sempre.

Destruir a autenticidade histórica, não.

Com os melhores cumprimentos

 

Paulo Ferrero, Filipe Teixeira, Bernardo Ferreira de Carvalho, Miguel de Sepúlveda Velloso, Fernando Jorge, António Passos Leite, Luís Serpa, Rui Martins, Luis Mascarenhas Gaivão, Diogo Baptista, Fátima Castanheira, Gonçalo Cornélio da Silva, Nuno Caiado, João Batista, António Barreto, Paula Cristina Peralta, Helena Espvall, Beatriz Empis, António Araújo, Jorge Pinto, Susana Morais, José Manuel Azevedo, Gustavo Cunha, Miguel Atanásio Carvalho

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