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Artigos de opinião

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Artigo de opinião “Alcatrão e penas“

Por Paulo Ferrero, in Público Online (04.10.2026)

«Anda a Câmara Municipal de Lisboa toda ufana a propagandear em tudo quanto é meio de comunicação a sua tão “corajosa” e “moderna” operação de substituição de paralelepípedos por alcatrão, numa série de arruamentos que, imagino eu, eram indignos da “capital dos unicórnios” em que a capital se pretende arvorar.

Infelizmente, uma coisa não joga com a outra.

Porque, curiosamente, nos países de origem das ditas criaturas, não as mitológicas, mas as tecnológicas, andam as autoridades locais empenhadas em desenvolver campanhas, calcule-se, diametralmente opostas às da capital lusa: arrancam o alcatrão de várias das suas ruas e substituem-no por piso permeável, em “canal dedicado”, como agora se diz, ao peão e à criação de espaços verdes, coisa escandalosa para os Paços do Concelho, querem ver?

A situação não é nova porque Lisboa, salvo raras excepções, sempre gostou de rodar em contra-ciclo relativamente às cidades europeias com quem se gosta de equiparar, quando convém, noutra coisas que não as que interessam.

Vem isto a propósito de três empreitadas que em nada contribuem para uma Lisboa do Século XXI, antes pelo contrário: Ribeira das Naus, Praça do Município e Ferreira Borges.

A retirada por parte da CML dos paralelepípedos da Avenida Ribeira das Naus, de forma implacável, sem dar sequer oportunidade a ninguém de tugir ou mugir – nem aos autores do projecto de 2014 que vêem assim o seu trabalho ir quase todo para debaixo do tapete de alcatrão; primeiro foi o fecho ao rio do lago criado junto ao torreão poente da Praça do Comércio, depois o alcatroamento do passadiço de madeira, para já não falar do adiamento sine die da colocação da D. Fernando II e Glória na doca seca da avenida -, não só fere de morte uma intervenção paisagística e de remodelação de espaço público que, goste-se ou não do resultado final, custou milhões à CML, como deita agora à rua os milhões que a CML gastou na altura naquela que foi a obra do regime, perdão, consulado de António Costa à frente da CML, e que tinha como mote, e bem:

Incentivar a que menos automóveis, ligeiros e pesados, circulassem naquela avenida entre o Sodré e Santa Apolónia, para o que foi fundamental a opção dos paralelepípedos em vez de alcatrão, que não só era uma solução amiga do ambiente como imprimia uma redução significativa da velocidade do trânsito – a manutenção do piso nunca foi feita (deliberado?) e o resultado está, estava, à vista: piso aos altos e baixos, buracos, mesmo, etc. De facto, o piso escolhido em 2014 contribui nos primeiros anos para que houvesse menos carros naquela zona, menos poluição, mais calma e lazer. Tudo inutilidades, dirá a actual CML.

Agora, haverá um inevitável aumento de trânsito com este alcatroamento, e os automobilistas serão convidados a carregarem no acelerador. Será um efeito perverso nas medidas que ao longo dos anos têm vindo a ser implementadas na Baixa e frente-rio, umas bem-sucedidas outras não tanto (a Rua da Conceição e a Rua da Madalena), . E diminuirá seguramente a segurança de quem foi convidado há 12 anos a passear calmamente naquele trajecto, usufruindo do rio e de algum silêncio, coisa impossível quando a Ribeira das Naus era um amontoado de barracas, gradeamentos e parques de material afectos à APL – é preciso ter-se memória.

Tão inexplicável quanto este K.O. do alcatrão ao paralelepípedo na Ribeira das Naus, é o alcatroamento do pequeno troço em paralelepípedo que existia na Praça do Município, no acesso ao estacionamento subterrâneo ali aberto no pós-incêndio dos Paços do Concelho, no canto Sul da praça e junto a um malfadado quiosque ali plantado à força por antigo vereador, e que não lembra a ninguém, mas avante.

Motivo tornado público para essa remoção, segundo o está anunciado no site da CML: “a intervenção, que se prevê que termine na 1.ª semana de Outubro, contempla a melhoria das condições para usufruto da praça pelos cidadãos e reforço da segurança”. Como? Importam-se de explicar?

E que dizer da substituição dos paralelepípedos (sempre eles) da Rua Ferreira Borges por o belo e “soft” piso em alcatrão, que a CML acaba de inaugurar, no âmbito da “requalificação da Ferreira Borges”, a qual, vá lá, não implicou o abate de árvores, as quais, diga-se em abono da verdade, são o último reduto de beleza existente naquela artéria central de Campo de Ourique – há muitos anos, por causa delas, um amigo sueco me dizia: “ah, esta rua é como sempre imaginei que seria Lisboa”.

A CML, com este alcatroamento, empurrou com a barriga e para as calendas, quem sabe para um executivo corajoso e que pense a longo-prazo, uma questão grave: os carris de eléctrico que se mantinham há décadas na Ferreira Borges, ainda que sem utilização desde o encerramento das carreiras 25 e 26 (sobretudo esta) que ali circulavam, e que agora foram removidos.

Em 1990, CML e Carris anunciaram que se tratava de um encerramento provisório, e que os eléctricos voltariam um dia a circular naquela rua, o que, à boa maneira portuguesa, acabou por nunca acontecer.

Verdade seja dita que os executivos da CML e Junta ao decidirem arrancar os carris da Rua de Campo de Ourique em 2021, mutilaram um troço fundamental do circuito de eléctrico que continuava pela Ferreira Borges, já aí um arranque em contra-ciclo com o que mundo civilizado faz nas últimas décadas: apostar forte nos eléctricos.

Esta empreitada vem maquilhada de peça de um puzzle chamado “super-quarteirão”, o tal do espaço público contínuo, da cidade dos 15’, das mobilidades suaves, e de um sem-número de virtualidades de estirador topo de gama. Contudo, ela choca de frente com o princípio assumido publicamente pela CML e CARRIS de reabrirem linhas de carris desactivadas e de criarem novas linhas, como forma de tornar mais sustentável e moderna a cidade de Lisboa.

Porque agora, com a CML a arrancar os carris da Ferreira Borges, ter-se-á dado a machadada final no regresso do eléctrico àquela artéria central de Campo de Ourique, inviabilizando para sempre a ligação Estrela-Rato-Amoreiras.

Talvez que algures no futuro tenhamos a graça de ter uma CML com rasgo e então se recupere o tempo agora perdido.

Afinal, eleitos na CML, somos europeus ou portugueses?

Decidam-se!»

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